O treino, sendo uma ciência, questiona-se!

Se eu seguisse uma guideline de forma quase religiosa, apenas partiria do pressuposto que um certo exercício seria excelente para a coluna por isso todo o tipo de pessoas (como todo o tipo de colunas) conseguiriam fazer sem desconforto. Isto não seria correto.

“A ciência não é dogmática, jamais conseguirá dar “a” resposta. As pesquisas científicas não são receitas, por isso não devem ser replicadas aleatoriamente, a qualquer um. No mundo real, os outliers também contam.” – Júlia Silva, Master em Treino de Força EXS

Ao longo da minha experiência como profissional de exercício físico, cada vez mais me apercebo que não pertenço a nenhum “clube científico” ou metodologia de treino milagrosa, específica e pouco maleável. Quando tentamos prender-nos a um clube científico ou metodologia “chapa 5”, procurando o conforto da certeza, apenas nos arriscamos a cair na incerteza e a aumentar a nossa margem de erro.

Na área do Fitness por vezes coloca-se a preto e branco algumas variáveis que deviam ser analisadas com tempo, sem especulação nem julgamento. Dizemos ter uma “boa mobilidade” ou “má mobilidade”, “muita força” ou “pouca força”. Até mesmo que treino X é melhor que Y.

Tenho aprendido que respeitar religiosamente guidelines de entidades máximas só porque estas o recomendam não é o caminho, pois essas resultam de médias experimentais que muitas vezes podem não respeitar um caso específico.

Como profissional de exercício tenho de colocar de parte o meu ego e viés científico. Tenho de encarar o facto de que cada corpo é um corpo. Cada experiência é uma experiência. E um caso que seja 0,1% de uma população, tem o seu valor e não pode ser padronizado ou fundido com o restante.

Quando criei o “Glossário de Movimentos” na plataforma de aulas da JRNY Fitness, procurei transmitir noções básicas essenciais sobre exercícios específicos. Também tinha noção que impor uma única técnica ou maneira de execução não iria resultar. Mais do que técnica e alinhamento, que também são importantes, quis transmitir a consciência, foco e contração muscular inerentes àquele exercício.

Procurei mais sensações do que padrões posturais, por exemplo “empurrar o chão com força”. No agachamento, em vez de impor os pés à largura da anca pedi para que os pés fossem colocados numa posição natural, que fosse confortável. Se não o fizesse, poderia cair no erro de desrespeitar aquilo que é o conforto anatómico de quem executa. Tudo isto mantendo na mesma as regras básicas e essenciais para a segurança do exercício.

O “Up Dog”, por exemplo, como está representado na fotografia, é um auge de extensão de coluna e de contração da parte de trás do corpo (e expansão da parte da frente).

“Glossário de Movimentos – Up Dog”

Mas um Up Dog nunca vem só. Junto com esse exercício, disponibilizei três alternativas que poderiam encaixar-se mais no conforto de quem está a fazer a aula. Se eu seguisse uma guideline de forma quase religiosa, apenas partiria do pressuposto que este é um excelente exercício para a coluna por isso todo o tipo de pessoas (como todo o tipo de colunas) conseguiriam fazer sem desconforto.

“Glossário de Movimentos – Up Dog (Alternativa)”

Quando aplico um exercício numa aula JRNY, questiono-me sempre: para quem é que este exercício pode ser confortável ou desconfortável? Como é que posso adaptar este exercício, que alternativas posso dar, para que todo o tipo de estrutura anatómica o possa executar?

E isto, no fundo, tira-me um peso de cima no processo de coreografar, pois desapego-me do dogma de “exercícios errados e exercícios corretos”. Posso aplicar todos, desde que coloque sempre as questões certas e encare com tranquilidade a natureza fluida do meu conhecimento.

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